por Igor Gasparini
Procedimento inspirado no texto Escutatória, de Rubem Alves:
Experiência:
1. Alongar
2. Deslocar e Aquecer
3. Respiração
4. Segmentação do Corpo - Improvisação
5. Contato-Improvisação
6. Reflexão
7. Associação Livre
8. Criação
9. Dispersão
Escutatória
Rubem Alves
"Sempre vejo
anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que
ninguém vai se matricular.Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro
que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um
monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça
esteja vazia.
Parafraseio o
Alberto Caeiro: Não é bastante
ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também
que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta
ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que
ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que
ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser
complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade
de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os
mais bonitos...
Tenho um velho
amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução
de 64.
Contou-me de sua
experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo
silêncio.
Vejam a
semelhança...
Os pianistas, por
exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em
silêncio...
Abrindo vazios de
silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio,
à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em
seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele
julgava essenciais.
São-me estranhos. É
preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a
seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em
silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não
ouvi o que você falou.
Enquanto você
falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola)
fala.
Falo como se você
não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que
você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para
mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos,
estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio
quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a
reunião.
Não basta o
silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz
o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa
conhecia a experiência...
E, se referia a
algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há
palavras.
A música acontece
no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar -
quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos
ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não
havia...
Que de tão linda
nos faz chorar.
Para mim, Deus é
isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância
de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a
beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
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