O processo (In)Certeza, dos artistas vocacionados da Biblioteca Cassiano Ricardo, teve sua estreia na Mostra de Dança do Centro Cultural Vila Formosa (Equipe Leste 1) e marca o nascimento do Coletivo BiCaRi.
A troca ocorreu entre os artistas vocacionados da Biblioteca Cassiano Ricardo, com orientação de Igor Gasparini; do Centro Cultural Vila Formosa, com orientação de Nina Giovelli; e do CEU Formosa, com orientação de Rafael Anacleto. Articulação de equipe: Robson Alfieri.
O tema escolhido para inspirar a criação em dança foi: (In)Certeza. Quais as inquietações? Quais as dúvidas que movem estes corpos? Quais as incertezas, seja na vida, seja na dança, que temos que lidar? Vemos a improvisação como o principal lugar em que a incerteza se materializa no corpo. Diferentemente da coreografia, de uma sequência organizada de gestos, improvisar nos parece ser a busca constante por algo que não sabemos ao certo, uma incerteza que toma o corpo, como algo lançado ao abismo. Ainda que tentemos escapar dos vícios ou dos movimentos comuns ao nosso corpo, a improvisação estará sempre atrelada às coleções de informações que tornam aquele indivíduo único e singular. E com isso, tentar escapar de sua essência, se mostrará uma grande tarefa de Sísifo. Uma tentativa inglória de fuga que se reflete em mais e mais incertezas...
O processo (In)Certeza, dos artistas vocacionados da Biblioteca Cassiano Ricardo, foi aberto para os intérpretes-criadores do T.F.Style Cia de Dança para um compartilhamento e troca artística de retroalimentação. Uma mostra de processo com apreciação que antecedeu à Mostra de Dança do Centro Cultural Formosa (Equipe Leste 1).
O tema escolhido pelos artistas vocacionados da Biblioteca Cassiano Ricardo para inspirar a criação em dança foi: (In)Certeza. Quais as inquietações? Quais as dúvidas que movem estes corpos? Quais as incertezas, seja na vida, seja na dança, que temos que lidar?
Vemos a improvisação como o principal lugar em que a incerteza se materializa no corpo. Diferentemente da coreografia, de uma sequência organizada de gestos, improvisar nos parece ser a busca constante por algo que não sabemos ao certo, uma incerteza que toma o corpo, como algo lançado ao abismo. Ainda que tentemos escapar dos vícios ou dos movimentos comuns ao nosso corpo, a improvisação estará sempre atrelada às coleções de informações que tornam aquele indivíduo único e singular. E com isso, tentar escapar de sua essência, se mostrará uma grande tarefa de Sísifo. Uma tentativa inglória de fuga que se reflete em mais e mais incertezas...
Palco ou Rua?
Participação do Público?
Música ou Silêncio?
Descontrole?
Quedas?
Olhos fechados?
Quanto tempo?
Quais os limites do corpo?
E no contato com o outro, ainda mais incerteza. Por meio do contato-improvisação, como as relações se revelam? Como dançar se dependo da incerteza da movimentação do outro? Essas e outras questões fizeram parte do processo de criação que teve sua apresentação na Mostra de Processos em Dança, no Teatro Zanoni Ferrite, em diálogo com vocacionados do próprio Centro Cultural Vila Formosa e do CEU Formosa (Equipe Leste 1).
"Na Teoria da Informação, a medida de incerteza é a entropia, uma propriedade emprestada da termodinâmica para determinar até que ponto um sistema se encontra em equilíbrio, bem como para mensurar a desordem de um sistema. A entropia descreve a perda de informação, a incapacidade da energia de um sistema para realizar um trabalho. Quanto mais afastado do equilíbrio, por exemplo, mais um sistema tende a apresentar comportamentos radicais, produtivos e imprevisíveis" - Jochen Volz.
Procedimento inspirado na coleção Bichos (1960), de Lygia Clark; em La Bête (O Bicho), de Wagner Schartz; na obra de Steve Paxton; e de Clarice Lima:
- Quais os limites do corpo?
- Quais o cuidados com o seu e com o corpo do outro?
- É possível doar-se 100%? O que seria isso?
"Outros modernos do começo de 1944, como Merce Cunningham, John Cage e Martha Graham, já ofereciam uma abordagem mais arejada para a dança, seguindo outros parâmetros:
–Qualquer movimento pode ser material para dança.
–Qualquer procedimento é valido como um método de composição.
–Qualquer parte do corpo pode ser usada (sujeita a uma limitação da natureza).
–Música, figurino, cenário, luz e dança têm suas identidades e lógicas autônomas.
–Qualquer bailarino da companhia pode ser solista.
–Qualquer espaço pode ser utilizado para dança.
–Dançar pode ser sobre qualquer coisa mas, fundamentalmente, sobre o corpo humano e seus movimentos, começando pelo modo de andar." - Arqueologia do Futuro, p.115.
A inquietação para pesquisa em dança dos vocacionados 2016 da Biblioteca Cassiano Ricardo foi a Incerteza E, com isso, visitamos como ação cultural a Bienal de Arte de São Paulo que teve como tema Incerteza Viva. A visita foi mediada pela artista Isis Gasparini.
por Beatriz Lins (Texto) e Robson Silva (Ilustrações)
"Certa vez li que quando você associa algum momento/cheiro/barulho à alguém é sinal de que aquele alguém é importante demais para você, sinal de que de alguma forma isso te pertence. É engraçado como isso se torna evidente em minha vida. Seja no metrô, ao caminhar na rua, ao assistir um espetáculo, ao ler alguma poesia, ao pensar em coreografias... o vocacional está em toda parte; em todos os lugares que estou, na maioria dos textos que crio, nos momentos que danço sozinha no meu quarto e claro: em todas as minhas reflexões sobre o que é arte.
Tenho aprendido muito após cada conversa; não tenho apenas levado lições para a minha jornada na arte, tenho aprendido a lutar pelos meus sonhos, aprendido a ser melhor a cada dia e batalhar para contribuir com a mudança do meu país (ao invés de ficar reclamando de braços cruzados)... Pois é, o vocacional tem me levado além do que eu esperava. E como faz bem saber que estou no caminho certo, como faz bem ter a oportunidade de aprender com pessoas que eu tanto admiro!
Agradeço (primeiramente) a Deus por ter me feito enxergar que eu posso ser quem eu quiser, e com o apoio Dele irei além. Agradeço ao mestre / orientador / profê / parceiro / MELHOR / olhos azuis (hahahahhahahaha tá, chega rs) Igor Gasparini que se dedica tanto ao seu trabalho, que mesmo em meio a correria, a exaustão e aos tantos outros obstáculos que enfrenta dia após dia, nunca deixa de transparecer o seu amor pela arte e dar o melhor de si a cada encontro. E claro: o meu MUITO OBRIGADA a esta turma que se entrega a cada nova proposta, me faz rir horrores e me ensina taaanto."
"A vida produz formas... Ela seria uma sequência de formas coreografadas por sentimentos, emoções, relacionamentos, desafios e experiências?
Como uma obra de arte em processo, você se constrói e se desconstroi... Quantas mãos te moldam? A quanto tempo esta sendo moldado? Quantas cores e formas você já teve? Foi o tempo e conceitos que modificaram os olhares sobre você? Ou foram as rachaduras? Talvez a busca por respostas e significados não façam sentido para uma obra inacabada..."
Exercícios de improvisação em dança: segmentação do corpo, percepção de si e do outro, improvisação livre, delimitação dos espaços, jogos de improvisação, contato, entre outros disparadores:
“A improvisação é o processo cujo objetivo primeiro é criar, a partir do velho, do existente, o novo, o não-existente. E isto a instala como o principal recurso evolutivo do Sistema Dança. No existente, a possibilidade do ainda não-existente. A vida nasce assim. A dança também” (MARTINS, 1999, p.93).
"O processo de aprendizado do movimento, em situação de imitação ou criação a partir de instruções não formais (não baseadas na forma dos movimentos), dá-se com base nas experiências do movimentos passadas, e envolve não só esquemas motores, mas o reconhecimento das categorias sensoriais envolvidas, num processo sempre dinâmico de contaminação com ambiente no presente". - Neide Neves, p. 176 in "Arte e Cognição", de Katz e Greiner, 2015.
Após experimentos de improvisação inspirados pelo cubo de análise do movimento de Laban e de Forsythe, reflexões e materialidades surgem a partir de exercícios de composição coreográfica:
Um corpo que se constrói por experiências. Uma assinatura que aparece. Não surge do nada, é buscada, insistida, trabalhada, desenvolvida. É preciso muita maturidade para entender, afinal caligrafia é algo individual, singular, genuíno. Artisticamente, a vontade de buscar uma pesquisa autoral, que revele essa assinatura, já que temos máquinas de xerox demais.
Matrizes, técnicas e fundamentos são essenciais, porém, servem de ponto de partida, nunca de chegada. Talvez por isso, muitas vezes seja tão difícil etiquetar; colocar dentro de uma caixinha; definir. Mas felizmente não estamos interessados no rótulo; enquanto artistas, queremos mais; e faz tempo. Sair das convenções nunca é fácil e (de novo) é preciso maturidade para aceitar, entender ou, no mínimo, respeitar.
Hoje apenas: #dance #dança #corpo #movimento As demais hashtags deixamos para quem quiser se aventurar...
“Fórmulas, definições, rótulos: já me colocaram tantos na pele! É a preparação habitual dos críticos: querem analisar, dissecar, procurar a todo custo parentelas e classificações. Mas acho que não me incluo em nenhuma categoria. Nem quero.” (PINA BAUSCH in BETIVOGLIO, 1994, 16)
"Associação Livre" de artista vocacionado após experiência de corpo e silêncio:
"Contato, tato, ato, papo, sem papo, hiato, chato, sapo cato, conto, suado suado, zuado, Nos de novo rimando coisas ridículas, o barulho do mundo nos cala, nos cala diante da hipocrisia, do racismo, da indiferença, da intolerância, porque temos que ser "x" ou "y" porque não podemos ser nós, sem julgamentos, sem certo ou errado, não sou a pessoa mais correta mas tento ter o mínimo de respeito com os outros, respeito, isso é o que nos torna "+" humanos. Escrever sem pensar muito bem e mais complicado porque as idéias da nossa mente não são lineares".
"Associação Livre" de artista vocacionado após experiência de corpo e silêncio:
"A partir da hora e vez era Elias do Carandiru da cidade da Dayane da laranja iluminada do stanluz do ganelha da Ingrid cia municipal canhota do piano ganhou o tapete da Emanuelle Jason Power Changeman unha preço cortar as frestas da memória Ana Paula Pedro na veia olhos azuis o aniversário de Bruno eu ganhei Luciano na globo famoso Chuck Barbacena meu pai a janela TUC o linóleo tíndaro Belo Horizonte cia de porto eu perdi o passaporte cachorro no memorial das palmeiras chaves ferida Domingos Montagner não cansada perna longa cenoura é laranja chuva que eu quase peguei no guarda Canelo nele eu passo pelo ônibus no no Carlos risca a letra 1914 Mônica Palio Tânia mestrado da Patamar eu não sei mais escrever ou cigarro na garganta da mina do grupo preposição subordinada sem rumo eu ainda anjinhos na etapa concurso de literatura 100 reais em 2000 é como 800 hoje Wellington sabia não tem rosa Studio Emília queimado em mão 15 anos da enteada Pedro Carol Pedro Carol eu criança".
"Associação Livre" de artista vocacionado após experiência de corpo e silêncio:
"- Corpo, exaustão.
- Corpo + corpo + sensação + corpo + corpo.
- Respiração + toque, o outro. Sentir, respirar, tocar.
- Tocar, conhecer, sentir. O outro.
- Perceber. O outro. / O corpo / O espaço.
- Silêncio, barulho, respiração.
- Toque, pegada, transposição, contato.
- Olhar para si, para dentro; para o outro/interior x exterior.
- Suor, cheiros, ar.
- Sintonia, proposta, o outro.
- Desprendimento, deformas, música? Que música?
- Sair? Que bom!
- Silêncio? Que silêncio?"
"Associação Livre" de artista vocacionado após experiência de corpo e silêncio:
"O que antes era, era agora tudo vai em um compasso tipo o meu passo, determinado pelas batidas do meu coração. Que insiste em pulsar cada vez mais rápido, quando sabe te encontrar é quase para quando tem que deixar. O agora já não tem mais hora. O que era, foi, o que foi é o que é sua.
Escrever
Pensar
Refletir
Dormir
Para sonhar acordado
Silêncio é bom
Indecisão
Meu corpo, meu ritmo
Vazio
Ver e ver-se
Sentir e sentir-se
Dormir"
Procedimento inspirado no texto Escutatória, de Rubem Alves:
Experiência: 1. Alongar
2. Deslocar e Aquecer
3. Respiração
4. Segmentação do Corpo - Improvisação
5. Contato-Improvisação
6. Reflexão
7. Associação Livre
8. Criação
9. Dispersão
Escutatória
Rubem Alves
"Sempre vejo
anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que
ninguém vai se matricular.Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro
que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um
monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.Para se ver, é preciso que a cabeça
esteja vazia.
Parafraseio o
Alberto Caeiro:Não é bastante
ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também
que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta
ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que
ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que
ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser
complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade
de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os
mais bonitos...
Tenho um velho
amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução
de 64.
Contou-me de sua
experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo
silêncio.
Vejam a
semelhança...
Os pianistas, por
exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em
silêncio...
Abrindo vazios de
silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio,
à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em
seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele
julgava essenciais.
São-me estranhos. É
preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a
seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em
silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não
ouvi o que você falou.
Enquanto você
falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola)
fala.
Falo como se você
não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que
você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para
mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos,
estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio
quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a
reunião.
Não basta o
silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz
o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa
conhecia a experiência...
E, se referia a
algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há
palavras.
A música acontece
no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar -
quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos
ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não
havia...
Que de tão linda
nos faz chorar.
Para mim, Deus é
isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância
de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a
beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
Procedimento de improvisação inspirado no Dicionário das Tristezas Obscuras, criado pelo artista John Koenig. Trata-se de uma coleção de palavras inventadas, que servem para oficializar emoções que as pessoas sentem mas não conseguem explicar.
Alguns exemplos disparadores:
- Ambedo
Um tipo de transe melancólico no qual você se torna completamente absorto por pequenos detalhes sensoriais – pingos de chuva escorrendo pela janela, árvores altas se dobrando lentamente com o vento, espirais de creme se formando no café – o que, por fim, leva a uma avassaladora constatação da fragilidade da vida.
- Anecdoche
Uma conversa em que todo mundo está falando mas ninguém está ouvindo.
- Anemoia
Nostalgia de um tempo no qual você nunca viveu.
- Exulansis
A tendência de desistir de tentar falar sobre uma determinada experiência porque as pessoas são incapazes de se relacionar com ela.
- Gnossienne
O momento em que você percebe que alguém que você conhece há anos tem uma vida interna, privada e misteriosa.
- Jouska
Uma conversa hipotética que você repete compulsivamente na sua cabeça.
- Lalalalia
Dar-se conta, enquanto fala sozinho, que outra pessoa pode estar escutando, o que o leva a rapidamente transformar as palavras em algum cantarolar sem sentido.
- Liberosis
O desejo de se importar menos com as coisas.
- Nementia
O esforço que vem logo após um momento de distração, para lembrar porque é mesmo que você está se sentindo irritada, ou ansiosa, ou animada.
- Occhiolism
Dar-se conta da pequenez da sua perspectiva. Com a qual você não tem como chegar a qualquer conclusão significativa sobre o mundo, o passado, ou as complexidades da cultura.
- Onism
A frustração de estar preso em apenas um corpo que habita apenas um lugar por vez.
- Opia
A intensidade ambígua de olhar alguém nos olhos, e sentir-se simultaneamente invasivo e vulnerável.
- The Bends
A frustração ao perceber que você não está aproveitando uma experiência tanto quanto deveria.
- Waldosia
Olhar para todos os rostos em uma multidão, procurando uma pessoa específica que não teria motivo algum para estar aí.
- Zenosyne
A sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido.
- Dés Vu
A percepção de que um dia isso irá virar uma lembrança
"A vontade de quem talvez não é gente e não pensa, mas vai no instinto e faz coisas por si, por ser sua própria vida e seu próprio líder. Deixar-se levar por esse outro membro que possui seu próprio cérebro e toma suas próprias decisões. O resto acata, mas não sei se está obedecendo ou tomando suas decisões também.
Sem líder e sem condutor e conduzido, então. Instinto, instinto, instinto e nada mais. Pouca racionalidade, o corpo vai se entregando todo a outro corpo, e fazendo nova poesia e nova composição.
Agora talvez o corpo do outro seja o líder, pois estou me movendo praticamente em função dele. Penso nele pra me mover, mas também acho que o meu tem vontades... Ou não, porque aconteceram pausas quando perdemos contato. Então duvido, ainda depois de ter feito várias vezes. A minha letra me incomoda. Músculos de escrita manual parece que desaprenderam seu repertório de movimentos."
“Penso, portanto sou”. Penso: sou uma corrente de
pensamentos. Um pensamento segue o outro, portanto sou. Um pensamento segue o
outro, por quê? Porque o primeiro pensamento não basta a si mesmo, se exige
outro pensamento. Exige outro para certificar-se de si mesmo.
Um pensamento segue outro porque o segundo duvida do primeiro, e porque o primeiro duvida de si mesmo. Um pensamento segue o outro pelo caminho da dúvida. Sou uma corrente de pensamento que duvidam. Duvido. Duvido, portanto sou. Duvido que duvido, portanto confirmo que sou. Duvido que duvido, portanto duvido que sou, independentemente de qualquer duvidar.
Assim se afigura, aproximadamente, o último passo da dúvida cartesiana. Estamos num beco sem saída. Estamos, com efeito, no beco que os antigos reservaram a Sísifo”. - "A Dúvida", de Vilem Flusser.
“Lembrar
do passado e das cicatrizes caracterizadas em meu ser, faz meu corpo se
contorcer até que a última molécula de oxigênio chegue aos meus pulmões me
fazendo voltar ao consciente. Quando penso que estou no caminho certo, e paro
para lembrar do tanto de erros que cometo, todas as minhas certezas vão
desfalecendo gradativamente até que eu perca a esperança e volte a estaca zero;
até que eu me coloque novamente naquele vazio que faz minha alma sangrar. Dizem
que é possível enxergar a alma de uma pessoa através do olhar, e talvez isso
seja verdade. Espero então, que ninguém nunca olhe diretamente aos meus olhos,
seria perigoso demais se descobrissem tudo o que sinto.Eu sei que combinamos de desenhar, mas eu não
podia deixar de escrever sobre o encontro de hoje”.
Seguem abaixo algumas materialidades produzidas pelos artistas vocacionados ao longo de algumas orientações:
por Arthur Alves
por Raquel Flor
"Todo esforço de tornar homogênea a transmissão do conhecimento, não é adequado. Você tem que aprender a viver com seu contrário. E tomar posição e se enriquecer com o outro, que não pensa como você." - Autor desconhecido, SESC Pompéia.
Artistas Orientadores: Danilo Monteiro, Eva Figueiredo, Flor di Castro, Igor Gasparini, Lúcia Kakazu, Nina Giovelli, Osvaldo Pinheiro, Pamela Gentile, Paulo de Tarso, Rafael Anacleto, Ronalde Monezzi e Stella Tobar
Articulador de Equipe: Robson Alfieri
“As fronteiras são desenhos geopolíticos riscados pelo poder, ou inclusive, podem ganhar longas formas tridimensionais construídas por governantes que buscam delimitar ou ampliar suas áreas de influência. Para serem estabelecidas, as fronteiras supõem conflitos, interesses diferentes e a relação amigo-inimigo.”
Miguel Chaia
O experimento “Fronteiras” surge dentro de um coletivo de Artistas Orientadores do Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo. Formado por músicos, bailarinos, atores, artistas visuais e escritores, os artistas planejaram um encontro de suas turmas, onde o tema central era as Fronteiras. Fronteiras num sentido amplo: as do próprio corpo, as simbólicas, políticas, geográficas, poéticas, culturais e afetivas.
Após uma pesquisa individual e muitas reuniões o coletivo cria como proposta uma série de experimentos, que dialogam com o tema central de forma diversa, aproveitando das linguagens principais de cada artista, mas também explorando tudo o que nos interessa enquanto criadores, experimentadores e articuladores de cultura.
Preparamos um espaço sensorial no piso superior da Biblioteca Adelpha Figueiredo, que encontra-se em espera de uma reforma, e por isso podíamos intervir no espaço com muita liberdade. Neste espaço dispomos uma série de provocações e disparadores para o público, feito de imagens, vídeos, objetos para experienciar com o corpo, objetos de escuta, de contemplação e de reflexão. Parafraseando Gilberto Freyre, em busca não de um tempo perdido, mas de uma presença senão perdida, ao menos em certo modo esquecida. A presença das inúmeras fronteiras que fizeram o Brasil. Ou como diria Drummond, “nenhum Brasil existe”, mas se existisse seriam muitos. Estes experimentos que propunham uma relação ativa com o público, com procedimentos que questionavam a divisão obra-espectador. Contamos no evento com mais de cem pessoas que vivenciaram com o coletivo esse passo primeiro em nossa pesquisa.
Estes experimentos foram centro e motivo das nossas pesquisas em equipe, pois o desejo é de seguir pesquisando, aprofundar experiências e descobrir novos procedimentos e diálogos a partir da proposta muito nos interessa e seduz.
Numa ação seguinte, a equipe aprofundou as questões em uma segunda ação no CEU Aricanduva, tentando fazer com que as reverberações do encontro anterior se multiplicassem e gerassem autonomia para a construção de um encontro coletivo, propostos pelos vocacionados e por seus anseios.
Essa equipe vislumbra possibilidades de descobrir seu espaço de criação, provocando o públicosobre a responsabilidade de suas ações coletivas, dando sentido as especificidades cotidianas, marcando o corpo coletivo, revelando assim um percurso que pode conter nele seu próprio sentido, desde que os participantes criem formas para ressignificar sua existência. Imaginando que a multiplicidade de linguagens artísticas do grupo proporia uma fricção de imagens, conceitos e criações artísticas com o intuito de localizar as linhas imaginárias de pensamentos e sensações, e por consequência rompê-las, criando assim um universo artístico mais híbrido e sem fronteiras. Num ciclo vindouro, o corpo automaticamente criaria um mecanismo de ressignificação de sua autoria, propondo neste percurso uma possibilidade de interação/integração dos membros deste corpo. A diversidade artística do coletivo como a união de singularidades e não de identidades, prima-se pela respeito as singularidades de cada um dos artistas, buscando fomentar e potencializar suas idiossincrasias, desde que em diálogo com as proposições artísticos.
Os objetivos centrais dos experimentos/performances passa pela fruição da arte, o diálogo constante e profundo com a comunidade e a ressignificação do espaço público, do corpo, dos afetos e das identidades.
O “Fronteiras” propôs a criação de uma nova possibilidade de espaço público, formação, discussões e dialéticas. Tem uma vocação errante, privilegiando espaços abertos e de passagem. Devolvidos às palavras argumentadas e as relações densas, praças e largos, centros históricos e sítios monumentais ganham um aspecto festivo e participativo, integrando os moradores e visitantes em uma difusa e generalizada atmosfera cognitiva e cultural. À dimensão literária e humanística da ação, com a participação de artistas de múltiplas linguagens, são enxertados caminhos múltiplos e surpreendentes de debates, performances e encontro-espetáculo sobre arte e sua função transformadora, que se desdobram e se multiplicam em novas formas de expressão e incursão no tema “fronteiras”, com exposição de artes visuais, exibições/execuções de música e instrumentos musicais, vídeos, instalações, dança e teatro, recriando de um modo inusitado a face da cidade. Todos os artistas estão envolvidos numa construção coletiva. Para cada dia de encontro uma palavra-chave atua como um catalisador que permite a construção de um clima unificado de referências e ressonâncias que, a partir dos léxicos conceituais tramados nas híbridas performances, abre as portas a inúmeros caminhos de compreensão e participação.
Acreditamos que a única maneira de entender a arte é de vivê-la, viver no meio dela, banhado. Isso é uma problemática tão temporal quanto espacial. A divisão do sensível se opera em termo territorial. O deslocamento de unidades culturais para a periferia não basta, se ele não se vier com a criação real de laços entre artistas, o acesso a recursos, eventos, vida cultural. Ele apenas se torna apaziguador social em vez de ser lugar mesmo de uma problematização e de um rompimento de fronteiras.