Ação Cultural de Equipe desenvolvida pelos:
Artistas Orientadores: Danilo Monteiro, Eva Figueiredo, Flor di Castro, Igor Gasparini, Lúcia Kakazu, Nina Giovelli, Osvaldo Pinheiro, Pamela Gentile, Paulo de Tarso, Rafael Anacleto, Ronalde Monezzi e Stella Tobar
Articulador de Equipe: Robson Alfieri
“As fronteiras são desenhos geopolíticos riscados pelo poder, ou inclusive, podem ganhar longas formas tridimensionais construídas por governantes que buscam delimitar ou ampliar suas áreas de influência. Para serem estabelecidas, as fronteiras supõem conflitos, interesses diferentes e a relação amigo-inimigo.”
Miguel Chaia
O experimento “Fronteiras” surge dentro de um coletivo de Artistas Orientadores do Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo. Formado por músicos, bailarinos, atores, artistas visuais e escritores, os artistas planejaram um encontro de suas turmas, onde o tema central era as Fronteiras. Fronteiras num sentido amplo: as do próprio corpo, as simbólicas, políticas, geográficas, poéticas, culturais e afetivas.
Após uma pesquisa individual e muitas reuniões o coletivo cria como proposta uma série de experimentos, que dialogam com o tema central de forma diversa, aproveitando das linguagens principais de cada artista, mas também explorando tudo o que nos interessa enquanto criadores, experimentadores e articuladores de cultura.
Preparamos um espaço sensorial no piso superior da Biblioteca Adelpha Figueiredo, que encontra-se em espera de uma reforma, e por isso podíamos intervir no espaço com muita liberdade. Neste espaço dispomos uma série de provocações e disparadores para o público, feito de imagens, vídeos, objetos para experienciar com o corpo, objetos de escuta, de contemplação e de reflexão. Parafraseando Gilberto Freyre, em busca não de um tempo perdido, mas de uma presença senão perdida, ao menos em certo modo esquecida. A presença das inúmeras fronteiras que fizeram o Brasil. Ou como diria Drummond, “nenhum Brasil existe”, mas se existisse seriam muitos. Estes experimentos que propunham uma relação ativa com o público, com procedimentos que questionavam a divisão obra-espectador. Contamos no evento com mais de cem pessoas que vivenciaram com o coletivo esse passo primeiro em nossa pesquisa.
Estes experimentos foram centro e motivo das nossas pesquisas em equipe, pois o desejo é de seguir pesquisando, aprofundar experiências e descobrir novos procedimentos e diálogos a partir da proposta muito nos interessa e seduz.
Numa ação seguinte, a equipe aprofundou as questões em uma segunda ação no CEU Aricanduva, tentando fazer com que as reverberações do encontro anterior se multiplicassem e gerassem autonomia para a construção de um encontro coletivo, propostos pelos vocacionados e por seus anseios.
Essa equipe vislumbra possibilidades de descobrir seu espaço de criação, provocando o público sobre a responsabilidade de suas ações coletivas, dando sentido as especificidades cotidianas, marcando o corpo coletivo, revelando assim um percurso que pode conter nele seu próprio sentido, desde que os participantes criem formas para ressignificar sua existência. Imaginando que a multiplicidade de linguagens artísticas do grupo proporia uma fricção de imagens, conceitos e criações artísticas com o intuito de localizar as linhas imaginárias de pensamentos e sensações, e por consequência rompê-las, criando assim um universo artístico mais híbrido e sem fronteiras. Num ciclo vindouro, o corpo automaticamente criaria um mecanismo de ressignificação de sua autoria, propondo neste percurso uma possibilidade de interação/integração dos membros deste corpo. A diversidade artística do coletivo como a união de singularidades e não de identidades, prima-se pela respeito as singularidades de cada um dos artistas, buscando fomentar e potencializar suas idiossincrasias, desde que em diálogo com as proposições artísticos.
Os objetivos centrais dos experimentos/performances passa pela fruição da arte, o diálogo constante e profundo com a comunidade e a ressignificação do espaço público, do corpo, dos afetos e das identidades.
O “Fronteiras” propôs a criação de uma nova possibilidade de espaço público, formação, discussões e dialéticas. Tem uma vocação errante, privilegiando espaços abertos e de passagem. Devolvidos às palavras argumentadas e as relações densas, praças e largos, centros históricos e sítios monumentais ganham um aspecto festivo e participativo, integrando os moradores e visitantes em uma difusa e generalizada atmosfera cognitiva e cultural. À dimensão literária e humanística da ação, com a participação de artistas de múltiplas linguagens, são enxertados caminhos múltiplos e surpreendentes de debates, performances e encontro-espetáculo sobre arte e sua função transformadora, que se desdobram e se multiplicam em novas formas de expressão e incursão no tema “fronteiras”, com exposição de artes visuais, exibições/execuções de música e instrumentos musicais, vídeos, instalações, dança e teatro, recriando de um modo inusitado a face da cidade. Todos os artistas estão envolvidos numa construção coletiva. Para cada dia de encontro uma palavra-chave atua como um catalisador que permite a construção de um clima unificado de referências e ressonâncias que, a partir dos léxicos conceituais tramados nas híbridas performances, abre as portas a inúmeros caminhos de compreensão e participação.