domingo, 31 de julho de 2016

Ação Cultural: Fronteiras


Ação Cultural de Equipe desenvolvida pelos:



Artistas Orientadores: Danilo Monteiro, Eva Figueiredo, Flor di Castro, Igor Gasparini, Lúcia Kakazu, Nina Giovelli, Osvaldo Pinheiro, Pamela Gentile, Paulo de Tarso, Rafael Anacleto, Ronalde Monezzi e Stella Tobar

                                                                          Articulador de Equipe: Robson Alfieri

“As fronteiras são desenhos geopolíticos riscados pelo poder, ou inclusive, podem ganhar longas formas tridimensionais construídas por governantes que buscam delimitar ou ampliar suas áreas de influência. Para serem estabelecidas, as fronteiras supõem conflitos, interesses diferentes e a relação amigo-inimigo.”
Miguel Chaia

O experimento “Fronteiras” surge dentro de um coletivo de Artistas Orientadores do Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo. Formado por músicos, bailarinos, atores, artistas visuais e escritores, os artistas planejaram um encontro de suas turmas, onde o tema central era as Fronteiras. Fronteiras num sentido amplo: as do próprio corpo, as simbólicas, políticas, geográficas, poéticas, culturais e afetivas.   

Após uma pesquisa individual e muitas reuniões o coletivo cria como proposta uma série de experimentos, que dialogam com o tema central de forma diversa, aproveitando das linguagens principais de cada artista, mas também explorando tudo o que nos interessa enquanto criadores, experimentadores e articuladores de cultura.

Preparamos um espaço sensorial no piso superior da Biblioteca Adelpha Figueiredo, que encontra-se em espera de uma reforma, e por isso podíamos intervir no espaço com muita liberdade. Neste espaço dispomos uma série de provocações e disparadores para o público, feito de imagens, vídeos, objetos para experienciar com o corpo, objetos de escuta, de contemplação e de reflexão. Parafraseando Gilberto Freyre, em busca não de um tempo perdido, mas de uma presença senão perdida, ao menos em certo modo esquecida. A presença das inúmeras fronteiras que fizeram o Brasil. Ou como diria Drummond, “nenhum Brasil existe”, mas se existisse seriam muitos. Estes experimentos que propunham uma relação ativa com o público, com procedimentos que questionavam a divisão obra-espectador.  Contamos no evento com mais de cem pessoas que vivenciaram com o coletivo esse passo primeiro em nossa pesquisa.








Estes experimentos foram centro e motivo das nossas pesquisas em equipe, pois o desejo é de seguir pesquisando, aprofundar experiências e descobrir novos procedimentos e diálogos a partir da proposta muito nos interessa e seduz.

Numa ação seguinte, a equipe aprofundou as questões em uma segunda ação no CEU Aricanduva, tentando fazer com que as reverberações do encontro anterior se multiplicassem e gerassem autonomia para a construção de um encontro coletivo, propostos pelos vocacionados e por seus anseios.
Essa equipe vislumbra possibilidades de descobrir seu espaço de criação, provocando o público sobre a responsabilidade de suas ações coletivas, dando sentido as especificidades cotidianas, marcando o corpo coletivo, revelando assim um percurso que pode conter nele seu próprio sentido, desde que os participantes criem formas para ressignificar sua existência. Imaginando que a multiplicidade de linguagens artísticas do grupo proporia uma fricção de imagens, conceitos e criações artísticas com o intuito de localizar as linhas imaginárias de pensamentos e sensações, e por consequência rompê-las, criando assim um universo artístico mais híbrido e sem fronteiras.  Num ciclo vindouro, o corpo automaticamente criaria um mecanismo de ressignificação de sua autoria, propondo neste percurso uma possibilidade de interação/integração dos membros deste corpo. A diversidade artística do coletivo como a união de singularidades e não de identidades, prima-se pela respeito as singularidades de cada um dos artistas, buscando fomentar e potencializar suas idiossincrasias, desde que em diálogo com as proposições artísticos.





Os objetivos centrais dos experimentos/performances passa pela fruição da arte, o diálogo constante e profundo com a comunidade e a ressignificação do espaço público, do corpo, dos afetos e das identidades.    
O “Fronteiras” propôs a criação de uma nova possibilidade de espaço público, formação, discussões e dialéticas. Tem uma vocação errante, privilegiando espaços abertos e de passagem. Devolvidos às palavras argumentadas e as relações densas, praças e largos, centros históricos e sítios monumentais ganham um aspecto festivo e participativo, integrando os moradores e visitantes em uma difusa e generalizada atmosfera cognitiva e cultural. À dimensão literária e humanística da ação, com a participação de artistas de múltiplas linguagens, são enxertados caminhos múltiplos e surpreendentes de debates, performances e encontro-espetáculo sobre arte e sua função transformadora, que se desdobram e se multiplicam em novas formas de expressão e incursão no tema “fronteiras”, com exposição de artes visuais, exibições/execuções de música e instrumentos musicais, vídeos, instalações, dança e teatro, recriando de um modo inusitado a face da cidade. Todos os artistas estão envolvidos numa construção coletiva. Para cada dia de encontro uma palavra-chave atua como um catalisador que permite a construção de um clima unificado de referências e ressonâncias que, a partir dos léxicos conceituais tramados nas híbridas performances, abre as portas a inúmeros caminhos de compreensão e participação.





Acreditamos que a única maneira de entender a arte é de vivê-la, viver no meio dela, banhado. Isso é uma problemática tão temporal quanto espacial. A divisão do sensível se opera em termo territorial. O deslocamento de unidades culturais para a periferia não basta, se ele não se vier com a criação real de laços entre artistas, o acesso a recursos, eventos, vida cultural. Ele apenas se torna apaziguador social em vez de ser lugar mesmo de uma problematização e de um rompimento de fronteiras.






quarta-feira, 20 de julho de 2016

Algumas incoerências...


“... o fato de que a incoerência, essa inicial não adesão à economia da práxis cotidiana, se desenvolve depois em uma nova e sistemática coerência... O ator, através de uma longa prática e um treinamento contínuo fixa esta 'incoerência' em um processo de inervação, desenvolve outros reflexos neuromusculares que desembocam em uma nova cultura do corpo, em uma 'segunda natureza', em uma nova coerência, artificial, mas marcada pelo bio.” - Ciane Fernandes







quarta-feira, 6 de julho de 2016

A continuidade: "Claro-Escuro"


Por Igor Gasparini


                Após ótima experiência em 2014 no CEU Formosa, em que trabalhei com corpos bastante distintos e com variadas potencialidades, do jovem ao idoso, Vocacionados com e sem experiência em dança, e até portadores de necessidades especiais, decidi dar continuidade aos processos neste equipamento no ano de 2015. Esta heterogeneidade apresentou a mim uma paleta de muitas cores, cada corpo com seu potencial criativo, com sua história de vida, com sua vontade comunicativa, dançando... E este desafio se manteve vivo durante todo o ano, com alguns remanescentes do ano anterior, e outros novos, igualmente disponíveis para o desenvolvimento dos processos artísticos em dança.




            O fato de ter na equipe artistas orientadores de diferentes linguagens fez com que o diálogo se potencializasse nesta direção, e isso está diretamente relacionado à minha atuação: tanto em 2014, em que nosso processo se aproximou das artes visuais, quanto em 2015, em que nos aproximamos do texto e da literatura.

            Em 2014, desenvolvi alguns processos criativos e a pintura norteou a investigação. Inspirados ora pela música, ora por técnicas variadas entre as danças urbanas e contemporâneas, ora por laboratórios, ora por experiências bastante individuais, tentamos descobrir um corpo-pincel. E, com ele, muitas telas foram pintadas: com e no próprio corpo, no corpo do outro; chão, paredes, objetos e teto; dentro e fora do espaço dos encontros; no teatro; na gestão. O corpo-pincel, por ser mídia de si mesmo (Teoria Corpomídia de KATZ e GREINER, 1998), desenhou sua história. E cada Vocacionado pintou suas memórias e imprimiu nos gestos toda a sua experiência pessoal. A cada encontro foram desenvolvidas novas iniciativas de trabalho, novos disparadores; partes do corpo tornaram-se pincéis; e cada um trouxe cada vez mais tinta para nossa grande tela.

            Já em 2015, partimos deste corpo-pincel, descoberto e trabalhado no ano anterior, para buscar novas possibilidades de experiência e, desta vez, encontramos no texto, e na palavra, grande parte da motivação para esta dança. Cada Vocacionado foi estimulado a trazer um texto (poesia, conto, prosa, poema, entre outros) que fosse significativo para ele, que o tocasse de alguma forma. A partir disso, todos passaram a “dançar esses textos”, tanto individual, quanto coletivamente, dialogando não apenas com sua própria escolha, mas com as dos demais também. Cada poema foi lido e dançado, debatido e resignificado, palavras foram destacadas, interpretadas... E assim, nosso processo foi sendo construído, em diálogo direto com esta literatura.

“Poesia é brincar com palavras; como se brinca com bola, papagaio, pião; Só que bola, papagaio, peão de tanto brincar se gastam. As palavras não; quando mais se brinca com elas, mais novas ficam. Como a água do rio que é água sempre nova; como cada dia que é sempre um novo dia; Vamos brincar de poesia?” – João Paulo Paes[1]

E passamos a pensar então na Mostra de Processos. “O processo se engendra de maneira cooperativa, com a participação de todos os artistas envolvidos, que atuam conjuntamente no decorrer da própria pesquisa de linguagem. As opções cênicas, nesse caso, não surgem como determinações vindas de fora, mas de dentro das experimentações, possibilitando uma investigação coletiva de caráter processual” (DESGRANGES, 2012, p. 205). Esse trecho extraído do livro “A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador teatral” resume bem a minha atuação com os Artistas Vocacionados. Em nenhum momento busquei impor algo (de fora), mas eles próprios foram encontrando caminhos (de dentro) que surgiram a partir das várias inquietações corporais e reflexivas desenvolvidas ao longo do ano. O que te move? Qual a busca? Quais questões lhe inquietam? E a partir disso, trabalhamos muito pela improvisação, tentando ao máximo diversificar os disparadores dessa dança, sempre atrelado às sensações e à individualidade.

Vejo o Vocacional potencializando processos artísticos colaborativos, visto que há a constituição de um coletivo de artistas em trabalho conjunto de investigação. E desta investigação diretamente relacionada à pesquisa dos textos, percebeu-se que parte deles tinha uma temática mais alegre, enquanto outra parte era mais densa e pesada. Desta dualidade surgiu o tema de nossa mostra: Claro-Escuro.

A partir disso, dividimos então os textos “claros” e os textos “escuros”, selecionando palavras que os representassem para o desenvolvimento de cada cena:

Claro: espelho, poesia, bravura, alegria, brincar, sensível, morangos e branco.
Escuro: espelho, dor, tristeza, lágrimas, solidão, caverna, tempestade, gritar e preto.

  

Gostaria de destacar também que houve, neste ano, um princípio de emancipação de parte dos Vocacionados que, por estudarem juntos na EMEF, formaram um grupo para apresentações diversas em eventos promovidos pela própria Escola como Feiras Culturais e Show de Talentos. Este grupo de adolescentes se organizou em horários distintos das orientações do Vocacional, ensaiaram por conta, e foram respaldados pela Coordenação do CEU que os apoiou, cedendo espaço para que ensaiassem. Eles criaram sozinhos uma cena completa que foi algumas vezes apresentada. Sob a minha orientação, e utilizando dos conhecimentos adquiridos ao longo do ano, puderam dar um passo além, que acredito que deva ser destacado justamente por ser um dos pilares deste Programa. Tenho então incentivado que continuem se encontrando, mesmo no período de recesso, para que, quem sabe, não surja daí, um grupo de dança.

"Em cada passo percorremos diversos caminhos, em cada giro viajamos o mundo, em cada olhar transmitimos desejos, em cada toque multiplicamos sensações, em cada queda transcendemos a emoção, em cada dança sonhamos; com os pés no chão" - Rinaldo Donizete de Freitas

Gostaria de destacar ainda a Ação Cultural que nossa Equipe realizou na Biblioteca Adelpha Figueiredo, visto que o foco deste encontro foi justamente o diálogo das várias linguagens que compunham nosso grupo de orientadores. A partir das obras dos artistas vocacionados de artes visuais do CEU Aricanduva, que foram expostas como em uma galeria no piso superior da biblioteca, o encontro teve total liberdade para que cada um se expressasse da maneira livre: tocando um instrumento, cantando, dançando, atuando, pintando... Com algumas poucas indicações que afixamos nas paredes como disparadores, e com a única regra de não poder falar, houve um lindo momento de compartilhamento artístico, sem julgamento, em que cada vocacionado pôde experimentar das várias linguagens, não necessariamente a sua, expressar seus desejos, dando voz ao seu interior. O rastro deste encontro ficou impregnado nas paredes, com frases e palavras que foram escritas do chão ao teto, uma marca potente deste encontro naquele espaço e em cada corpo que esteve presente.



Para encerrar, ainda pensando na Mostra de nosso processo, acredito na importância de um trabalho que promova um diálogo com o público, que o leve a refletir, pensar, questionar. Não defendo que deva haver um entendimento completo da obra, mas eu, enquanto artista, devo apresentar caminhos para que o público possa encontrar suas formas de interpretação. E o meio utilizado para essa comunicação é o corpo, mídia de si mesmo, que por si só, já apresenta um fluxo constante de troca de informações, segundo a Teoria Corpomídia.

A comunicação ocorre permanentemente na relação entre corpo e ambiente. Todo corpo, humano ou não, existe e pode ser chamado de corpo quando puder ser identificado por uma coleção circunscrita de informações que não para de se transformar. “Meio e corpo se ajustam permanentemente num fluxo inestancável de transformações e mudanças” (KATZ e GREINER, 1998, p. 91). A comunicação é então tecida por esse ajuste contínuo de transformações.

Sendo cada corpo uma mídia de si mesmo, isto é, do conjunto circunstancial de informações que o torna corpo e que nunca se completa, é possível afirmar que os processos de comunicação no ambiente não se estancam, visto que o fluxo de trocas entre ambos é constante. É no fluxo comunicacional que corpo e ambiente lidam com as informações, e elas buscam a sua sobrevivência através da adaptação e da reprodução. É neste ponto que se inscreve o meu momento profissional atual e muito do que vejo como potencial nos Vocacionados, pois cada corpo que chega às orientações já traz consigo toda a sua coleção de informações, de histórias, de memórias.

O que vem de dentro? O que você deseja expressar com sua dança? Qual é essa dança interior? Consequentemente, o objetivo foi então o de mostrar o potencial de cada corpo, individualmente, compensando a heterogeneidade inerente à realidade do nosso grupo: lendo, escrevendo, falando, dançando... Claro-Escuro conseguiu desenvolver sua forma de escrita em dança e que eu espero poder ter novas páginas, ou uma nova edição, em 2016.

“A poesia não é sentimento, mas experiência, e que para escrever um só verso é preciso ter visto muitas cidades, homens e coisas, conhecer os animais, sentir como voam os pássaros e saber que movimento fazem as flores ao se abrirem pela manhã; é preciso ter lembrança de mulheres sofrendo na hora do parto, de pessoas morrendo, de crianças doentes, de diferentes noites de amor; e depois é preciso esquecer tudo isso, esperar que tudo isso se incorpore ao nosso sangue, ao nosso olhar, que tudo isso fique fazendo parte de nós”. – R. M. Rilke

             
           
Referências:
DESGRANGES, F. A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador teatral. São Paulo: Hucitec Editora, 2012.
KATZ, H.; GREINER, C. A natureza cultural do corpo. In Lições de Dança 3. Org.: Silvia Soter Roberto Pereira. Rio de Janeiro: Univercidade, 1998.


Legenda:
- Contexto (BRANCO)
- Processo Artístico-Pedagógico em 2015 (AZUL)
- Emancipação (ROXO)
- Inter linguagens (VERMELHO)
- Referências (VERDE)




[1] Os trechos destacados em itálico são alguns dos textos selecionados pelos Vocacionados para o desenvolvimento de nossa pesquisa Claro-Escuro.