Por Igor Gasparini
Após ótima
experiência em 2014 no CEU Formosa, em que trabalhei com corpos bastante
distintos e com variadas potencialidades, do jovem ao idoso, Vocacionados com e
sem experiência em dança, e até portadores de necessidades especiais, decidi
dar continuidade aos processos neste equipamento no ano de 2015. Esta
heterogeneidade apresentou a mim uma paleta
de muitas cores, cada corpo com seu potencial criativo, com sua história de
vida, com sua vontade comunicativa,
dançando... E este desafio se manteve vivo durante todo o ano, com alguns
remanescentes do ano anterior, e outros novos, igualmente disponíveis para o
desenvolvimento dos processos artísticos em dança.
O
fato de ter na equipe artistas orientadores de diferentes linguagens fez com
que o diálogo se potencializasse nesta direção, e isso está diretamente
relacionado à minha atuação: tanto em 2014, em que nosso processo se aproximou
das artes visuais, quanto em 2015, em que nos aproximamos do texto e da
literatura.
Em
2014, desenvolvi alguns processos criativos e a pintura norteou a investigação. Inspirados ora pela música, ora por
técnicas variadas entre as danças urbanas e contemporâneas, ora por
laboratórios, ora por experiências bastante individuais, tentamos descobrir um corpo-pincel.
E, com ele, muitas telas foram pintadas: com e no próprio corpo, no corpo do
outro; chão, paredes, objetos e teto; dentro e fora do espaço dos encontros; no
teatro; na gestão. O corpo-pincel, por
ser mídia de si mesmo (Teoria Corpomídia de KATZ e GREINER, 1998), desenhou sua
história. E cada Vocacionado pintou suas memórias e imprimiu nos gestos toda a
sua experiência pessoal. A cada encontro foram desenvolvidas novas iniciativas
de trabalho, novos disparadores; partes
do corpo tornaram-se pincéis; e cada um trouxe cada vez mais tinta para nossa
grande tela.
Já em 2015, partimos deste corpo-pincel, descoberto e trabalhado no
ano anterior, para buscar novas possibilidades de experiência e, desta vez,
encontramos no texto, e na palavra, grande parte da motivação para esta dança.
Cada Vocacionado foi estimulado a trazer um texto (poesia, conto, prosa, poema,
entre outros) que fosse significativo para ele, que o tocasse de alguma forma.
A partir disso, todos passaram a “dançar esses textos”, tanto individual,
quanto coletivamente, dialogando não apenas com sua própria escolha, mas com as
dos demais também. Cada poema foi lido e dançado, debatido e resignificado,
palavras foram destacadas, interpretadas... E assim, nosso processo foi sendo
construído, em diálogo direto com esta literatura.
“Poesia é brincar com palavras; como se brinca com bola,
papagaio, pião; Só que bola, papagaio, peão de tanto brincar se gastam. As
palavras não; quando mais se brinca com elas, mais novas ficam. Como a água do
rio que é água sempre nova; como cada dia que é sempre um novo dia; Vamos
brincar de poesia?” – João Paulo Paes[1]
E passamos a pensar então na Mostra de Processos. “O processo se
engendra de maneira cooperativa, com a participação de todos os artistas
envolvidos, que atuam conjuntamente no decorrer da própria pesquisa de
linguagem. As opções cênicas, nesse caso, não surgem como determinações vindas de fora, mas de dentro das experimentações, possibilitando uma investigação
coletiva de caráter processual” (DESGRANGES, 2012, p. 205). Esse trecho
extraído do livro “A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador
teatral” resume bem a minha atuação com os Artistas Vocacionados. Em nenhum
momento busquei impor algo (de fora),
mas eles próprios foram encontrando caminhos (de dentro) que surgiram a partir das várias inquietações corporais
e reflexivas desenvolvidas ao longo do ano. O que te move? Qual a busca? Quais
questões lhe inquietam? E a partir disso, trabalhamos muito pela improvisação,
tentando ao máximo diversificar os disparadores dessa dança, sempre atrelado às
sensações e à individualidade.
Vejo o Vocacional potencializando
processos artísticos colaborativos, visto que há a constituição de um coletivo
de artistas em trabalho conjunto de investigação. E desta investigação
diretamente relacionada à pesquisa dos textos, percebeu-se que parte deles
tinha uma temática mais alegre, enquanto outra parte era mais densa e pesada.
Desta dualidade surgiu o tema de nossa mostra: Claro-Escuro.
A partir disso, dividimos então os
textos “claros” e os textos “escuros”, selecionando palavras que os
representassem para o desenvolvimento de cada cena:
Claro: espelho, poesia,
bravura, alegria, brincar, sensível, morangos e branco.
Escuro: espelho, dor, tristeza,
lágrimas, solidão, caverna, tempestade, gritar e preto.
Gostaria de destacar também que
houve, neste ano, um princípio de emancipação de parte dos Vocacionados que,
por estudarem juntos na EMEF, formaram um grupo para apresentações diversas em
eventos promovidos pela própria Escola como Feiras
Culturais e Show de Talentos.
Este grupo de adolescentes se organizou em horários distintos das orientações
do Vocacional, ensaiaram por conta, e foram respaldados pela Coordenação do CEU
que os apoiou, cedendo espaço para que ensaiassem. Eles criaram sozinhos uma
cena completa que foi algumas vezes apresentada. Sob a minha orientação, e
utilizando dos conhecimentos adquiridos ao longo do ano, puderam dar um passo
além, que acredito que deva ser destacado justamente por ser um dos pilares
deste Programa. Tenho então incentivado que continuem se encontrando, mesmo no
período de recesso, para que, quem sabe, não surja daí, um grupo de dança.
"Em cada passo percorremos diversos caminhos, em cada
giro viajamos o mundo, em cada olhar transmitimos desejos, em cada toque
multiplicamos sensações, em cada queda transcendemos a emoção, em cada dança
sonhamos; com os pés no chão" - Rinaldo Donizete de Freitas
Gostaria
de destacar ainda a Ação Cultural que nossa Equipe realizou na Biblioteca
Adelpha Figueiredo, visto que o foco deste encontro foi justamente o diálogo
das várias linguagens que compunham nosso grupo de orientadores. A partir das
obras dos artistas vocacionados de artes visuais do CEU Aricanduva, que foram
expostas como em uma galeria no piso superior da biblioteca, o encontro teve
total liberdade para que cada um se expressasse da maneira livre: tocando um
instrumento, cantando, dançando, atuando, pintando... Com algumas poucas
indicações que afixamos nas paredes como disparadores, e com a única regra de
não poder falar, houve um lindo momento de compartilhamento artístico, sem
julgamento, em que cada vocacionado pôde experimentar das várias linguagens,
não necessariamente a sua, expressar seus desejos, dando voz ao seu interior. O
rastro deste encontro ficou impregnado nas paredes, com frases e palavras que
foram escritas do chão ao teto, uma marca potente deste encontro naquele espaço
e em cada corpo que esteve presente.
Para encerrar, ainda pensando na
Mostra de nosso processo, acredito na importância de um trabalho que promova um
diálogo com o público, que o leve a refletir, pensar, questionar. Não defendo
que deva haver um entendimento completo da obra, mas eu, enquanto artista, devo
apresentar caminhos para que o público possa encontrar suas formas de
interpretação. E o meio utilizado para essa comunicação é o corpo, mídia de si
mesmo, que por si só, já apresenta um fluxo constante de troca de informações,
segundo a Teoria Corpomídia.
A comunicação ocorre permanentemente
na relação entre corpo e ambiente. Todo corpo, humano ou não, existe e pode ser
chamado de corpo quando puder ser identificado por uma coleção circunscrita de
informações que não para de se transformar. “Meio e corpo se ajustam permanentemente
num fluxo inestancável de transformações e mudanças” (KATZ e GREINER, 1998, p.
91). A comunicação é então tecida por esse ajuste contínuo de transformações.
Sendo cada corpo uma mídia de si
mesmo, isto é, do conjunto circunstancial de informações que o torna corpo e
que nunca se completa, é possível afirmar que os processos de comunicação no
ambiente não se estancam, visto que o fluxo de trocas entre ambos é constante.
É no fluxo comunicacional que corpo e ambiente lidam com as informações, e elas
buscam a sua sobrevivência através da adaptação e da reprodução. É neste ponto
que se inscreve o meu momento profissional atual e muito do que vejo como
potencial nos Vocacionados, pois cada corpo que chega às orientações já traz
consigo toda a sua coleção de informações, de histórias, de memórias.
O que vem de dentro? O que você deseja
expressar com sua dança? Qual é essa dança interior? Consequentemente, o
objetivo foi então o de mostrar o potencial de cada corpo, individualmente,
compensando a heterogeneidade inerente à realidade do nosso grupo: lendo,
escrevendo, falando, dançando... Claro-Escuro
conseguiu desenvolver sua forma de escrita em dança e que eu espero poder ter
novas páginas, ou uma nova edição, em 2016.
“A poesia não é sentimento, mas experiência, e que para
escrever um só verso é preciso ter visto muitas cidades, homens e coisas,
conhecer os animais, sentir como voam os pássaros e saber que movimento fazem
as flores ao se abrirem pela manhã; é preciso ter lembrança de mulheres
sofrendo na hora do parto, de pessoas morrendo, de crianças doentes, de
diferentes noites de amor; e depois é preciso esquecer tudo isso, esperar que
tudo isso se incorpore ao nosso sangue, ao nosso olhar, que tudo isso fique
fazendo parte de nós”. – R. M. Rilke
Referências:
DESGRANGES,
F. A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador teatral. São Paulo:
Hucitec Editora, 2012.
KATZ,
H.; GREINER, C. A natureza cultural do corpo. In Lições de Dança 3. Org.:
Silvia Soter Roberto Pereira. Rio de Janeiro: Univercidade, 1998.
Legenda:
- Contexto (BRANCO)
- Processo
Artístico-Pedagógico em 2015 (AZUL)
- Emancipação (ROXO)
- Inter
linguagens (VERMELHO)
- Referências (VERDE)
[1] Os trechos destacados em itálico são alguns dos textos
selecionados pelos Vocacionados para o desenvolvimento de nossa pesquisa Claro-Escuro.
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