“Penso, portanto sou”. Penso: sou uma corrente de
pensamentos. Um pensamento segue o outro, portanto sou. Um pensamento segue o
outro, por quê? Porque o primeiro pensamento não basta a si mesmo, se exige
outro pensamento. Exige outro para certificar-se de si mesmo.
Um pensamento segue outro porque o segundo duvida do primeiro, e porque o primeiro duvida de si mesmo. Um pensamento segue o outro pelo caminho da dúvida. Sou uma corrente de pensamento que duvidam. Duvido. Duvido, portanto sou. Duvido que duvido, portanto confirmo que sou. Duvido que duvido, portanto duvido que sou, independentemente de qualquer duvidar.
Assim se afigura, aproximadamente, o último passo da dúvida cartesiana. Estamos num beco sem saída. Estamos, com efeito, no beco que os antigos reservaram a Sísifo”. - "A Dúvida", de Vilem Flusser.
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